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ANTOLOGIA POÉTICA



Livro As Mãos Espalmadas POEMAS DE AS MÃOS ESPALMADAS (2006)
                                                                                                   (fragmentos)




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Light breaks where no sun shines;
Where no sea runs, the waters of the heart
Push in their tides
                                    (Dylan Thomas)


1.

Faze com que eu me pareça
comigo mesmo. E que seja
completo como a paisagem
que se vê do rio à margem.

Faze com que eu me torne
puro como uma ave de cobre
forjada na dor e desesperança,
despojada de toda lembrança.

Faze com que minha hora
seja breve. Seja agora,
não no tempo distante.
Como um clarão no horizonte.

Somente isso meu amor te pede.




2.

Passa por mim
rente ao chão
ao redor de meu corpo
qualquer coisa que vive.

Ouço o rumor de águas
ronco obscuro
de sombras líquidas
de pássaros sem asas
das carícias breves
de tuas mãos.

Se o dia fosse apenas
esse correr de horas
não haveria a noite.

Não haveria a noite
e tampouco outro dia.
Não haveria o tempo
a consumir as noites e os dias.

O tempo só existe
porque o dia se faz
a cada instante
a cada suspiro
de amor, a cada
passo na calçada.

O tempo só existe
porque o dia consome
todos os instantes, todos
os suspiros de amor, todos
os passos na calçada.

O tempo e o dia só existem
porque rente ao chão
ao redor do meu corpo existe
qualquer coisa que vive.

Como o meu amor por ti.




3.

Da janela vejo o mundo
sua luz branca ao amanhecer
seu estrondo silencioso
fazendo vibrar o concreto
e as gentes que passam
almas atormentadas
por não saberem a palavra exata.

Da janela vejo o mundo
e sou visto por ele
minha camisa vermelha
minhas calças folgadas
os olhos negros bem podiam
ser duas estrelas.

Da janela vejo o mundo
mundo que não rima
com a ferocidade de orquídeas
aprisionadas nesse vaso na sacada
não rima
com a solidão dos vagabundos
e dos homens quebrando as pedras das calçadas.

Da janela vejo o mundo
e essa liberdade de ver é falsa
pois entre o mundo e a janela
há o espaço que os olhos não vêem.

Entre o mundo e a janela
existe o ar ou a vida
existe uma espessa camada de ar
e o grito preso na garganta.
Entre a janela e o mundo
existe o olhar, o silêncio ensurdecedor
os sonhos de quem só sabe sonhar.
Entre a janela e o mundo
existe o vazio
o infinito
e o sorriso de Deus.




4.

Caindo agarrei-me a Ti.
Ou a algo parecido
com Tuas mãos.
E pude ver os homenzinhos
lá embaixo, pequeninos,
passos apressados
(por que tanta pressa, meu Deus?)
e havia folhas nos terraços
e as nuvens eram flocos
de uma esperança ainda úmida.
Um pássaro branco observava a cena.
Um dia que jamais esqueci.




5.

Quando disse dos figos
de sua natureza verde
de sua alma branca
a aragem da manhã
cortava a pele
navalha afiada
revelando o cinza da cidade.
E meus passos eram medidos
como quem mede o ritmo
solene de cada pulmão.
Meus passos eram medidos
centímetro por centímetro
entre a calçada e o meio-fio
atravessando um mapa imaginário
uma cidade imaginária
de lajotas em tom de marrom.
Havia as árvores.
Sim, as árvores e o bocejar dos pássaros
e o ganido dos automóveis.
Mas nada disso importava.
Apenas a soleira da porta
a soleira da porta e minha mão estendida,
- um gesto suspenso no ar.
Somente importava
a moldura do quadro
com teu retrato
na parede nua.
Foi quando disse dos figos
dormindo na fruteira sobre a mesa
no meio da sala.
Os figos.
E era tempo.




6.

Preciso de alguma coisa tua.
Uma rosa, um corte de tecido
ou a dor de tuas mãos.
Mas precisa ser tua
(é necessário que seja tua).
Verdadeiramente tua.
Como eram as manhãs
daqueles dias de inverno;
como eram as árvores
à margem da estrada de pó.
Tua, como a espuma das ondas
se aninhando em teu colo
e o brilho de teus olhos.
Tua, como as noites em fogo
e a geleira das manhãs
de inverno.
Tua, como a solidão das aves
e o silêncio das árvores no parque
onde caminhávamos de mãos dadas.
Precisa ser tua
(é necessário que seja tua)
pois sendo verdadeiramente tua
representa teu ser e o meu
e os deuses não aceitam
espelhos da alma.
Precisa ser tua
(é necessário que seja tua).
Essa a condição única.
Pois sendo tua (flor,
pano, a dor de tuas mãos)
será minha melhor oferenda
aos deuses que inventaram o amor.




7.

Abri meus olhos
como palavras que se diz
na noite de espadas
nas altas árvores
onde o orvalho e o silêncio
repousam nas folhas.
Abri meus olhos
e tuas mãos eram duas luas,
duas luas tão somente
as tuas mãos.
Abri meus olhos
e não consegui
reconhecer as palavras.
Mas o movimento de teus lábios
foi o bastante.
Pintaram de branco
a manhã.




8.

Ao lado, na cama,
a pele úmida de sal,
tu me perguntas
por que a noite
é tão espessa e fria
e não sei te dizer.
Pode ser porque teus olhos
guardem a luz do amanhecer.
Pode ser que minhas mãos
hesitem entre a carícia
e o abandono
ou teu corpo, este corpo
sem mágoas e palavras,
já não esteja junto ao meu.
Pode ser que o silêncio
transforme as sombras
em fantasmas
ou as estrelas
os guardas noturnos
e os sonolentos anjos
bêbados pelas ruas
estejam todos a dormir.
É claro, a escuridão
dessa noite não se pode abrir
como as páginas dos livros
que leio na minha insônia.
Mas isso, por si, não faz
a noite espessa e fria.

Talvez venha de um coração
de uns sonhos ou dos rumores
de outros amantes entre lençóis
esta sensação.
Não sei dizer.
Se não sei dizer
nada de mim
como dos mistérios da noite
poderia saber?
(Aliás, se a morte ao fim
é nosso mistério insolúvel
que nos importa a noite?)
Em verdade sinto também
apenas o que sentes:
a espessura grave da noite
como tateio e sinto
um objeto e suas medidas:
frente, fundos, altura.
Em verdade, o frio
da noite queima
minha alma, a tua
deixa meu braço direito
aquele feito para voar
completamente paralisado.
É isso, tão somente isso
que te posso dizer.
Creio ser o bastante.




09.

As nuvens existem, e existem tuas mãos
tentando alcançar o céu.
Sem algum rumo vagam nos ares,
viajam com o vento, tocam o sol.

Na tarde branca, onde a vida se inicia,
uma negra canta um blues de entristecer.
É cedo. É certo que é cedo.
Cedo para amar. Muito cedo para morrer.

As ruas cobrem-se de gente.
Há sorrisos, passos apressados nas calçadas.
Te quero... E entram pela porta aberta
a última esperança, as últimas palavras.

Os versos que te escrevo são falhos
até, meu amor, por serem sinceros;
se algum fosse impresso, esconderia
teu nome na trama do papel amarelo.

Atormenta-me esta terra, esta água que bebo,
atormenta-me esta angústia de pérolas rubras,
estes seios túrgidos onde recosto
minhas noites - retrato sem moldura.

E o dia renasce carinhosamente.
Em suas bordas lívidas, desamparadas,
apenas temos para sonhar
os corpos e as mãos espalmadas.




10.

O leito é branco
e lentamente
sobre os lençóis anoitece.

Teus lábios cercam o silêncio.




11.

Tu estás de costas para a noite,
e profanas o silêncio das estrelas.
Ouço o rumor agudo das abelhas,
os frutos de março,
o açoite de suas cores.

Deixa-me a sonhar com a neve,
o perfil de cordilheiras nunca vistas.
As pálpebras cerradas, a pele
reluzente do céu
que está prestes a cair.




12.

Por que sonhar,
sonhar com o sol
iluminando, pétala
por pétala, nossos braços?

Não te desejava mais
ausente:
os seios
o colo
quase mudos.

Banhados de areia
podiam ser assim
os olhos. As mãos.
E o beijo.




13.

É no outono, bem sei.
Quando se abre o sorriso dos dias, quando
o corpo tece a noite
os braços transpiram a jasmins.
Quando se pode morrer
de tanto admirar o sol.

É no outono, bem sei.
Teus olhos correm pelas alamedas
que amparam a luz do céu.
Caminhas pela areia
e a praia é branca de sal.

(É certo que teu passo é trôpego,
terás de buscar apoio nos pássaros.)

Entre as pedras
pousas tuas pernas lentamente.
Do ronco das ondas
crispadas de espuma
dás-me o sumo
um raio assim fulgente.

Deitas a cabeça em meu ombro
e vais sonhar
ausente de palavras:
só querias que eu despertasse
para a fúria das nuvens ou do vento.

É no outono, bem sei,
quando aperto tuas mãos entre as minhas.
Quando de amor
também se pode morrer.




14.

Dize-me, dize-me como buscar
no coração da terra
a palavra ainda úmida,
esse sopro inaudível
que vem de tua boca.

Fico a pensar em ti como eras
outrora, o flanco
exposto à lâmina do sol.
Caminho pelas alamedas

onde os homens são pássaros. Os lábios
sabendo a ferrugem.
É onde se pode ouvir melhor: o silêncio
é espesso, as árvores altas, azul a brisa.

Não te peço muito.
Qualquer sílaba é o bastante.

Em tuas mãos brota uma flor, a vida.




15.

Abre os braços devagar, abre
e abraça mais uma vez
o corpo esplêndido da luz;

tenta não ver a imagem partida
do oceano; não é a última chuva
que te toma as mãos;

não aspires o aroma espesso
da noite, fecha as janelas
à enrugada pele
dos jasmins;

acaricia este ruído, nem estrela nem árvore,
este rubor que ainda vive
e queima as mãos.




16.

Se te digo flor
são as asas dos pássaros
o ventre do rio
o arrepio de um corpo
desfeito ao sol.

Se te digo flor
é o súbito espanto
da vida nas ruas
pernas que cruzam
pernas nas avenidas.

Se te digo flor
é o som dos cristais
as vozes dos mortos
daqueles mortos que não têm voz.

Se te digo flor
- ouve-me.




17.

Pego tuas mãos
como toco a espiga
ou meus pés pousam
na poça límpida.

Teus ornamentos,
aromas, feito
a seda, o jade,
as cinzas do fogo.

O vento arrasta
um manto de folhas,
encobre as sementes,
a terra da terra.

Pego tuas mãos
como toco a espiga.
Como se a luz do dia
fosse a luz do último dia.




18.

A noite se parte aos poucos
na transparência dos pássaros.

O sol se abre, único,
prisioneiro de nuvens e raios.

Toma em tuas mãos
as lágrimas, todos os pecados.

Se fosse de seda a luz,
rebrilho do mar
do sol nas ondas,
eu mesmo estenderia as mãos para tocá-la.

Mas minhas mãos são frágeis.







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