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Light breaks where no sun shines; Where no sea runs, the waters of the heart Push in their tides (Dylan Thomas) 1. Faze com que eu me pareça comigo mesmo. E que seja completo como a paisagem que se vê do rio à margem. Faze com que eu me torne puro como uma ave de cobre forjada na dor e desesperança, despojada de toda lembrança. Faze com que minha hora seja breve. Seja agora, não no tempo distante. Como um clarão no horizonte. Somente isso meu amor te pede. 2. Passa por mim rente ao chão ao redor de meu corpo qualquer coisa que vive. Ouço o rumor de águas ronco obscuro de sombras líquidas de pássaros sem asas das carícias breves de tuas mãos. Se o dia fosse apenas esse correr de horas não haveria a noite. Não haveria a noite e tampouco outro dia. Não haveria o tempo a consumir as noites e os dias. O tempo só existe porque o dia se faz a cada instante a cada suspiro de amor, a cada passo na calçada. O tempo só existe porque o dia consome todos os instantes, todos os suspiros de amor, todos os passos na calçada. O tempo e o dia só existem porque rente ao chão ao redor do meu corpo existe qualquer coisa que vive. Como o meu amor por ti. 3. Da janela vejo o mundo sua luz branca ao amanhecer seu estrondo silencioso fazendo vibrar o concreto e as gentes que passam almas atormentadas por não saberem a palavra exata. Da janela vejo o mundo e sou visto por ele minha camisa vermelha minhas calças folgadas os olhos negros bem podiam ser duas estrelas. Da janela vejo o mundo mundo que não rima com a ferocidade de orquídeas aprisionadas nesse vaso na sacada não rima com a solidão dos vagabundos e dos homens quebrando as pedras das calçadas. Da janela vejo o mundo e essa liberdade de ver é falsa pois entre o mundo e a janela há o espaço que os olhos não vêem. Entre o mundo e a janela existe o ar ou a vida existe uma espessa camada de ar e o grito preso na garganta. Entre a janela e o mundo existe o olhar, o silêncio ensurdecedor os sonhos de quem só sabe sonhar. Entre a janela e o mundo existe o vazio o infinito e o sorriso de Deus. 4. Caindo agarrei-me a Ti. Ou a algo parecido com Tuas mãos. E pude ver os homenzinhos lá embaixo, pequeninos, passos apressados (por que tanta pressa, meu Deus?) e havia folhas nos terraços e as nuvens eram flocos de uma esperança ainda úmida. Um pássaro branco observava a cena. Um dia que jamais esqueci. 5. Quando disse dos figos de sua natureza verde de sua alma branca a aragem da manhã cortava a pele navalha afiada revelando o cinza da cidade. E meus passos eram medidos como quem mede o ritmo solene de cada pulmão. Meus passos eram medidos centímetro por centímetro entre a calçada e o meio-fio atravessando um mapa imaginário uma cidade imaginária de lajotas em tom de marrom. Havia as árvores. Sim, as árvores e o bocejar dos pássaros e o ganido dos automóveis. Mas nada disso importava. Apenas a soleira da porta a soleira da porta e minha mão estendida, - um gesto suspenso no ar. Somente importava a moldura do quadro com teu retrato na parede nua. Foi quando disse dos figos dormindo na fruteira sobre a mesa no meio da sala. Os figos. E era tempo. 6. Preciso de alguma coisa tua. Uma rosa, um corte de tecido ou a dor de tuas mãos. Mas precisa ser tua (é necessário que seja tua). Verdadeiramente tua. Como eram as manhãs daqueles dias de inverno; como eram as árvores à margem da estrada de pó. Tua, como a espuma das ondas se aninhando em teu colo e o brilho de teus olhos. Tua, como as noites em fogo e a geleira das manhãs de inverno. Tua, como a solidão das aves e o silêncio das árvores no parque onde caminhávamos de mãos dadas. Precisa ser tua (é necessário que seja tua) pois sendo verdadeiramente tua representa teu ser e o meu e os deuses não aceitam espelhos da alma. Precisa ser tua (é necessário que seja tua). Essa a condição única. Pois sendo tua (flor, pano, a dor de tuas mãos) será minha melhor oferenda aos deuses que inventaram o amor. 7. Abri meus olhos como palavras que se diz na noite de espadas nas altas árvores onde o orvalho e o silêncio repousam nas folhas. Abri meus olhos e tuas mãos eram duas luas, duas luas tão somente as tuas mãos. Abri meus olhos e não consegui reconhecer as palavras. Mas o movimento de teus lábios foi o bastante. Pintaram de branco a manhã. 8. Ao lado, na cama, a pele úmida de sal, tu me perguntas por que a noite é tão espessa e fria e não sei te dizer. Pode ser porque teus olhos guardem a luz do amanhecer. Pode ser que minhas mãos hesitem entre a carícia e o abandono ou teu corpo, este corpo sem mágoas e palavras, já não esteja junto ao meu. Pode ser que o silêncio transforme as sombras em fantasmas ou as estrelas os guardas noturnos e os sonolentos anjos bêbados pelas ruas estejam todos a dormir. É claro, a escuridão dessa noite não se pode abrir como as páginas dos livros que leio na minha insônia. Mas isso, por si, não faz a noite espessa e fria. Talvez venha de um coração de uns sonhos ou dos rumores de outros amantes entre lençóis esta sensação. Não sei dizer. Se não sei dizer nada de mim como dos mistérios da noite poderia saber? (Aliás, se a morte ao fim é nosso mistério insolúvel que nos importa a noite?) Em verdade sinto também apenas o que sentes: a espessura grave da noite como tateio e sinto um objeto e suas medidas: frente, fundos, altura. Em verdade, o frio da noite queima minha alma, a tua deixa meu braço direito aquele feito para voar completamente paralisado. É isso, tão somente isso que te posso dizer. Creio ser o bastante. 09. As nuvens existem, e existem tuas mãos tentando alcançar o céu. Sem algum rumo vagam nos ares, viajam com o vento, tocam o sol. Na tarde branca, onde a vida se inicia, uma negra canta um blues de entristecer. É cedo. É certo que é cedo. Cedo para amar. Muito cedo para morrer. As ruas cobrem-se de gente. Há sorrisos, passos apressados nas calçadas. Te quero... E entram pela porta aberta a última esperança, as últimas palavras. Os versos que te escrevo são falhos até, meu amor, por serem sinceros; se algum fosse impresso, esconderia teu nome na trama do papel amarelo. Atormenta-me esta terra, esta água que bebo, atormenta-me esta angústia de pérolas rubras, estes seios túrgidos onde recosto minhas noites - retrato sem moldura. E o dia renasce carinhosamente. Em suas bordas lívidas, desamparadas, apenas temos para sonhar os corpos e as mãos espalmadas. 10. O leito é branco e lentamente sobre os lençóis anoitece. Teus lábios cercam o silêncio. 11. Tu estás de costas para a noite, e profanas o silêncio das estrelas. Ouço o rumor agudo das abelhas, os frutos de março, o açoite de suas cores. Deixa-me a sonhar com a neve, o perfil de cordilheiras nunca vistas. As pálpebras cerradas, a pele reluzente do céu que está prestes a cair. 12. Por que sonhar, sonhar com o sol iluminando, pétala por pétala, nossos braços? Não te desejava mais ausente: os seios o colo quase mudos. Banhados de areia podiam ser assim os olhos. As mãos. E o beijo. 13. É no outono, bem sei. Quando se abre o sorriso dos dias, quando o corpo tece a noite os braços transpiram a jasmins. Quando se pode morrer de tanto admirar o sol. É no outono, bem sei. Teus olhos correm pelas alamedas que amparam a luz do céu. Caminhas pela areia e a praia é branca de sal. (É certo que teu passo é trôpego, terás de buscar apoio nos pássaros.) Entre as pedras pousas tuas pernas lentamente. Do ronco das ondas crispadas de espuma dás-me o sumo um raio assim fulgente. Deitas a cabeça em meu ombro e vais sonhar ausente de palavras: só querias que eu despertasse para a fúria das nuvens ou do vento. É no outono, bem sei, quando aperto tuas mãos entre as minhas. Quando de amor também se pode morrer. 14. Dize-me, dize-me como buscar no coração da terra a palavra ainda úmida, esse sopro inaudível que vem de tua boca. Fico a pensar em ti como eras outrora, o flanco exposto à lâmina do sol. Caminho pelas alamedas onde os homens são pássaros. Os lábios sabendo a ferrugem. É onde se pode ouvir melhor: o silêncio é espesso, as árvores altas, azul a brisa. Não te peço muito. Qualquer sílaba é o bastante. Em tuas mãos brota uma flor, a vida. 15. Abre os braços devagar, abre e abraça mais uma vez o corpo esplêndido da luz; tenta não ver a imagem partida do oceano; não é a última chuva que te toma as mãos; não aspires o aroma espesso da noite, fecha as janelas à enrugada pele dos jasmins; acaricia este ruído, nem estrela nem árvore, este rubor que ainda vive e queima as mãos. 16. Se te digo flor são as asas dos pássaros o ventre do rio o arrepio de um corpo desfeito ao sol. Se te digo flor é o súbito espanto da vida nas ruas pernas que cruzam pernas nas avenidas. Se te digo flor é o som dos cristais as vozes dos mortos daqueles mortos que não têm voz. Se te digo flor - ouve-me. 17. Pego tuas mãos como toco a espiga ou meus pés pousam na poça límpida. Teus ornamentos, aromas, feito a seda, o jade, as cinzas do fogo. O vento arrasta um manto de folhas, encobre as sementes, a terra da terra. Pego tuas mãos como toco a espiga. Como se a luz do dia fosse a luz do último dia. 18. A noite se parte aos poucos na transparência dos pássaros. O sol se abre, único, prisioneiro de nuvens e raios. Toma em tuas mãos as lágrimas, todos os pecados. Se fosse de seda a luz, rebrilho do mar do sol nas ondas, eu mesmo estenderia as mãos para tocá-la. Mas minhas mãos são frágeis. |