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ANTOLOGIA POÉTICA
POEMAS DE COTIDIÁRIO (1981)EU Carrego minhas cáries sem a mínima contemplação esta minha magreza foi um presente de Deus. Meus ossos são pálidos minhas pernas são fúteis e esse suor que escorre de minhas narinas atormenta teu sono. Entretanto, sei lá pelas quantas, meus olhos se acendem, enquanto tomo este prato de sopa e com os dedos ágeis vou desabotoando tua roupa. APÓS-CALYPSO Eles estavam sós antes do começo Os dentes amarelos voragem vulcão os seios deslizar Eu vi eles estavam nus e a pele era simples transparência de pensar Maquinavam sonhos sonhavam pulsos pulsavam noites gozo gosto festa As palavras de Rimbaud riscavam os céus do futuro infinito Pequenas vertigens do vulcão inquieto abalar o sexo da noite (Fósforo potássio dos cérebros!!) Os cegos caminhavam na clarividência do futuro! Eu vi os carros cortavam sem parar o pulso coletivo dos letreiros em busca do Farol da Meia-Noite Homens poetas solitários malditos eles terminaram sós AVENTURA Sonho todos os vermes impossíveis. Aventura não é o risco, mas o sonho que arriscamos. Trago, trazemos um coração em cada mão. Amo, amamos o sol inversível que não aquece. Vivo, vivemos do inumerável que é não poder. Sonhar é um certo poema: no final, perdemos a exata palavra. PREPARAÇÃO Contemplo teus dentes alvura infinita mar revoltoso de peixes de sonhos fosforescentes Contemplo este oceano mergulho em teu olhos e ao encostar uma concha aos ouvidos escuto o barulho do teu coração Contemplo a profundez abissal dos teus seios e a rigidez noturna de tuas coxas; nelas preparo o verão AURORA Como se dele nada houvesse restado deixava o pranto prismático molhando o suave corpo da terra e os gerânios que ali nasciam floriam delicados sorrisos AVE PÚTRIDA! ave erva-mater deocleciana ninfa parasita plácida ave misteriosa e flácida pus e endolinfa urbe sólida AVE, PUTA! Nas concreções da carne, bebendo num copo de isopor, ponho meu sexo em tuas mãos, entrego-me Nas crispações da carne, babando num copo multicor, ponho meu sapo em teu coração, arranco-me Nas contrações da tarde, beirando um corpo bicolor, pasto meu sangue em teu chão, arfando-me Nas cavações da tarde, beijando um corpo incolor, pasto meu lanche com teu cão, danando-me! Olhos de amoníaco lábios coloridos vulva delírio vulgívaga és tu MEU GRANDE AMOR SUÍTE EM RÉ MENOR Nunca nunca mais te procurei. Perdi-me naquela noite escura de tuas coxas os labirintos enlameados de teus pêlos a vertigem do alto de teus seios. Fazia frio naquela noite um vento que soprava da janela de veludo um tênue perfume de jasmins meu corpo se impregnava de teu corpo. Nunca nunca mais te procurei. Esqueci-me nos sonhos, nas colchas; no cetim de teu sono minha insônia te acariciava meus olhos arregalados buscavam uma fímbria de paz e esperança perdidas. Nunca nunca mais te procurei. Amanheci-me na tortura do sol que nascia as pessoas passavam para o trabalho e o ruído do novo dia enfastiava o nosso amor e a eterna certeza. Nunca nunca mais te verei. COTIDIÁRIO acordar levantar dourar os dentes com kolinos apagar os sonhos na privada e colocar açúcar no café beijar o rosto frio da mulher sair à rua tropeçar em caras sonolentas e ler as mesmas notícias de ontem no jornal de amanhã OBJETOS As chaves, o abat-jour, as poltronas, a taça de um vinho como sangue. Traças guardando o pó de velhos livros empoleirados - a estante fúnebre de mogno. Uma máquina de escrever, lápis, borracha, papel, o papel em branco. Brancos pratos e talheres, as pérolas sujas dos dentes. Um pequeno poema inconcluso. ESQUINA DA CONSOLAÇÃO Falam da poesia como se fosse Vênus, Juno, Minerva. É puta. Que se deseja e come como qualquer outra: paga-se para tê-la. NÓS O tempo recolheu os cacos juntou-os numa colcha e fez este retrato. VOAR sólida ave passeia no mar gaivota perdida na sombra solta no salto mortal de quem sabe a extensão do infinito |