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INÉDITOS E DISPERSOS . poemas esparsos



A HORA (fragmentos)

Bate forte
no relógio da Matriz
o estrondo desta hora:
Ave Maria das 6 da tarde
querubins e serafins
zoando feito zumbis
no oco da memória.

Hora de estar no jardim
olor forte dos jasmineiros
pular carniça
lata de banha
cachorro-linguiça;
hora de fumar escondido
cigarro Negritos
bolinhas de fumaça
pra espantar mosquitos.

Hora de estar para o amor
          (primeiro o jogo de betse)
depois Bete a primeira
Cláudia a segunda
Lígia a terceira

(- Escuta:
será tua
mãe ao pé da escada?
- Não, meu bem.
Hoje meus pais
só voltam de madrugada.)

Bete, Cláudia, Lígia
todas pequenas, leves, lindas
(como o vento de junho
e suas pipas coloridas
alçando vôo
mijando no céu
de azul e branco)
de vestido de chita
e fitas vermelhas
Cláudia, Lígia e Bete, todas
minhas princesas esquecidas.

Esta hora
hora eterna e etérea
puro éter
quando o poema não era poema
somente vida;
esta hora infinita
de bolo de fubá e leite-queimado
de casca de pão na toalha xadrez
de manteiga Malibú
e biscoito escocês;

esta hora
completa e cheia de sons distantes
hora morna
do meu avô lendo jornal no sofá
da velha sala da velha casa
da velha cidade onde nasci
onde ser feliz era uma possibilidade
e não um amontoado de palavras.

Esta hora em que a tarde
(tão quente e tão fria
cheia de sombras e sono)
custava a passar
dependurada em nossos ombros
sobre os bancos de barro do
Grupo Escolar Cardeal Leme.
Esta hora perdida em mim
em meus ossos
nos ovos de duas gemas
            fritos na manteiga
no mingau de frutas
com pão de queijo
cheiro forte de café preto
leite com nata
e brigadeiros.

Hora antes do banho frio
cuidado, menino
sabão de coco
nos cabelos
deixa brilho;
a mesma hora do banho quente
cuidado, menino,
vê se não demora
- dormir de cabelo molhado
na certa é resfriado

(e enquanto a mãe falava
um aroma de amor solitário
pelo banheiro se espalha).

Hora do apressado
(aquela que nunca passa)
que come depressa
para brincar na praça
salva-pega, subir-na-janela
e matar o besouro
escaravelho de ouro
que no escuro se esconde.

Quase hora de dormir
(Socorro, mãe
de escuro tenho medo
da treva de mim
que faz o mundo acabar em ruídos e gemidos e sussuros e beijos
da morte que um dia chegará, mas que não venha já
com foice e mortalha e caveiras desdentadas
da treva negra, mais que negra - cega -
que faz a noite girar
no negrume rubro dos pesadelos
("sonhar com fogo
toda noite, doutor,
como é que pode?")
esta hora noturna dos cemitérios
das macumbas nas encruzilhadas
das galinhas decapitadas
com farofa e sangue de boi
esta hora da meia-noite
e bicho-papão
do demo e do cramulhão
feito lâmina no coração.)

Mas ainda hora melada
de sonhos ereções e madrugadas;
hora de esperar minha tia Luzia
chegar com sua salada de tomates
e conversa de namorados
inexistentes.

Aquela hora noturna
de ver o grilo
que fica ali
cri, cri, cri!
até o sol raiar
fazendo a luz se espalhar
invadir as frinchas
espantar os pesadelos
e levantar as palavras.

Hora de pescar lambari no Turvo
quando o dia já se engraça
de ler "catecismo" atrás do muro
empinar papagaio na Mogiana
e transformar a infância em eterna aventura.
Hora tão bela
quando os moleques
combinavam da janela
bater bola jogar biroca
campeonato de punheta;
hora do Sol quase apagar a luz outra vez
e fazer o céu anil mais anil
feito a lápis de cor (ou vela)
e giz de cera.

A hora de espiar
pela frincha da porta
          as coxas de Esmeralda
          de um preto quase azul
          toda ensaboada
          E ver que naquele tico de carne
          (um pedaço de quadril)
          abria-se no ventre
          uma rosa escondida
          (Suas mãos deslizavam
          por caminhos sabidos
          limpavam, acariciavam
          gozavam nichos íntimos)

Hora de espiar
pela frincha da porta
          os olhos dela
          duas pérolas ubíquas
          duas jaboticabas retintas
          e que num relance me viram
          e seus lábios se abriram:
          quase um sussurro
          por pouco um sorriso
Na mesma hora
          em que meu coração em perigo
          fugiu esbaforido
          feito bicho no cio
          feito menino vadio
e me largou
          (pela frincha da porta)
          em pé no corredor
          ofegante de medo
          do meu primeiro amor

Hora da missa de domingo
feito cruzadinha
olhando as coxas
das filhas de Maria
e tremer de pavor
dos pecados que o Monsenhor
anunciava
(vinte ave-Marias
vinte padre-nossos
e (horror!)
quarenta Salve-Rainhas)

Hora de visitar
meu tio no hospital
para ouvi-lo resmungar:
"Agora que estou morrendo
não consigo falar;
eu, que tantas palavras
em minha caixa de jóias
trago guardadas.
Agora que minha pele está apodrecendo
não consigo ver
meu corpo no espelho
e disfarçar o horror
que me vai no peito.
Não tenham pena de mim.
Não estou sofrendo
ainda -
ainda não é o fim de tudo
(nem tampouco o começo).
Não, não velem meu corpo
(pelo menos por enquanto).
Não esqueçam que a vida
que resta existe
para ser vivida."
E, naquela hora,
fiquei com pena
de minha tia
morrendo
ao vê-lo morrer.
"Homem tão bom
o único homem
que tive
viveu pra mim
pro trabalho
e pros filhos.
Onde está a justiça
de Deus, meu Deus?
Deixar uma morte
tão suja matar
um homem tão bom?"
E foi a primeira vez
que vi o câncer
corroer alguém até o coração
e tive medo também
e chorei chorei
naquela hora.
Chorei tanto
que, no enterro,
já não tinha mais lágrimas
e mesmo assim
um choro inventei
com pena de mim.

Ah que saudades eu tenho
dessas horas que não voltam mais
da Joaninha atrás da cerca
da safardanagem nos matagais.
Da minha prima na árvore
vestindo calcinha de renda
o teu doce é minha prenda
bem de noite no alpendre.
Ah que saudades que eu tenho
quando palavras não existiam
e os lábios que beijavam
a língua não permitiam.
Ah que saudades que eu tenho
das filhas de Maria
do vapor de suas narinas
do jasmim de suas vaginas.
Ah que saudades me dá






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