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O SORRISO DO DIA
Havia entre as pedras o sorriso do dia
nas calçadas, ruas avenidas entre edifícios e rostos de alvenaria entre paralelepípedos, asfalto, das calçadas as guias ali (oculto entre tijolos quebrados flores e gramas de um canteiro inamovível de concreto) existia simplesmente existia entre as pedras caladas o sorriso do dia
Ninguém me disse eu mesmo o vi, aberto com seus dentes alvos com seus lábios rubros no semáforo da esquina entre os carros entre mendigos pedintes feito um bicho escondido ali escondido feito caça, presa raposa na floresta urso em sua gruta onça na mata o sorriso do dia
Nunca pensei que pudesse sorrir (um sorriso frouxo ou riso claro com dentes iluminados ou mesmo cariados) o dia
nem que por isso se precisasse esconder
Marca no calendário semente na lavoura do Tempo ente imaginário quem diria possuísse boca língua depressão ou azia o dia (quanto mais fosse dado à alegria)?
Já ouvi falar de dias tristes noites alegres “a tarde chorava quando chovia”
Já ouvi falar de um cão sorrir (como na canção popular) ao latir
Já ouvi cantar ao amanhecer e gritar como pássaros ao entardecer
Mas sorrir jamais ouvi dizer pudesse o dia – qualquer dia – sorrir
Útero de novas horas filho de árabes (egípcios) operário incansável com suas mãos indomáveis a girar as polias do vento sobre o calendário acreditei fosse somente usina de rugas de pêlos brancos de ossos frágeis fosse sisudo como um bancário executivo sério Ministro de Estado operador da bolsa dos Séculos ou agente funerário (e como tal jamais sorrisse)
Filho e pai de profecias senhor dos pássaros e das amêndoas bíblicas da cal que seca os lábios das abelhas e seu trabalho artífice da “noite magnética” ourives de estrelas metrônomo dos sonhos sétimo sendo primeiro sempre sem sorrir (pelo menos assim me diziam)
nas frinchas das pedras do jardim nas frestas das janelas dos quartos nas torres de marfim das lojas dos botequins embaixo das mesas das saias das moças entre o cu e a vagina ali na cona do mundo no aroma dos pentelhos o dia e seu sorriso ali no perfume das flores no azul dos mares entre o céu e as estrelas mais um astro entre tantas galáxias o sorriso do dia
Onde quer que eu fosse como um bálsamo para o diesel nas veias como um abrigo para a chuva ácida nos pulmões como pétala de rosa no coração o dia e seu sorriso
Acompanhando meus passos como minha mãe velava meu sono como um cão guarda seu dono como o verão prepara o outono o dia e seu sorriso
Tomando-me pelas mãos como um guia escolta o cego como a madeira se une ao prego como Pedro dizendo “nego” o dia e seu sorriso
- Ou não, pois
o dia -qualquer dia- não tem sorriso ou lágrimas um dia é só um dia sem alguma metáfora ou alegoria
O dia -qualquer dia- possui apenas sóis nuvens chamuscadas pálidas, iridizadas
o dia -qualquer dia- carrega no ventre o doce amargo – a promessa do recomeço da vida
(e falha) pois quanto mais o dia passa mais o corpo acaba mais a razão finda mais a morte se aproxima
Um dia -qualquer dia- não tem sorriso como as crianças em rodas elétricas como as velhas (mesmo caquéticas) se rindo sem dentaduras únicas ou duplas se rindo às catadupas como bêbados ao redor das putas
Afinal, quem foi que disse tamanha heresia? Em qual geografia (livro, ciência, religião, sabedoria) existe escrito que existe o sorriso do dia?
De outro lado se sorrir é humano (como a voz dos camelôs os versos de meu avô o pigarro de meu pai) se sorrir é insano (como a gargalhada dos débeis as fábricas e seus decibéis dos automóveis as buzinas) sorrir o dia, então não poderia?
Se sorrir é premente (como o amor ausente a fala dos videntes para a vista as lentes) se sorrir de repente tem a ver com a música do fogo com o silêncio transparente tem a ver com a mordida no fruto os cabelos ao vento o açúcar de junho então, por um momento possível não seria sorrir o dia?
Talvez não seja assim de simples poder ou tola querência Talvez assim não seja por proibirem alguns e outros evitarem por covarde prudência ou vã sapiência
Ou talvez seja assim desde que ordenado catalogado, codificado por rábulas, burocratas ou qualquer sorte de monarca
Pois nos bares, restaurantes cartazes dizem “Dê bom dia. Sorria.” Nos caixas eletrônicos nos bancos, repartições, elevadores também se diz: “Você está sendo filmado. Sorria.” Nos estádios de futebol não cansam de pedir: “Violência não. Sorriso sim.” Nos outdoors nos magazines no olho cego da TV todos um sorriso querem ver Até no lusco-fusco dos drive-in na cama do motel no clitóris da menina no suco de sua vagina tudo parece sorrir
(por que então o sorriso do dia não poderia também existir?)
Pois o sorriso está entranhado na carne do dia
entranhado como fio na teia como sangue nas veias como no mar a areia
entranhado nas imagens voláteis nas capas de revista (miragens versáteis de sedução e conquista)
entranhado, feito espinho farpa, estrepe embaixo das unhas das putas, das madamas e suas manicuras
entranhado, feito cisco grão de pó, caco de vidro nas conjuntivas dos olhos, no leitoso olho das câmeras de segurança
incômodo, faceiro escuso, brejeiro seja o que seja o sorriso no dia a sorrir
Branco feito lâmina de calcário teclado de piano anúncio de dentifrício em tudo o dia branco branco de tanta luz parece sorrir
Mesmo o dia estatelado nos convés dos navios nos guichês de crediário nas matinês do cinema na solidão do poema
Mesmo o dia encarcerado nas ondas do rádio nos crimes de amor no suor do ônibus nos vagões do metrô
Mesmo o dia emplumado no céu sem pássaros no mar dos náufragos na nau dos loucos no sexo virtual
branco branco como as flâmulas da paz os lençóis dos hospitais
Pois ali estava ele - o dia - a sorrir
entre as pedras - o sorriso do dia - a luzir
O sorriso do dia separa a luz da luz o sorriso do dia itinerante alumia é calmaria do vento que nos guia
Nos versos do poeta na flor do dia havia arrepios de Primavera manobras de Outono na chama do silêncio repousava até apetecia de tão claro seu sorriso
Brandindo asas pulsava na gruta intacta de pêlo e breu e cólera nos olhos quem sabe um ricto um esgar de dor não o sorriso sorriso mas outra coisa que também parecia sorrir
O alarido em volta da casa anunciava em alvorada alvoroço de cores e palavras anunciava que o dia sorria para o dia (não para mim ou para você) habitava apenas o próprio ser
em leves rumores na polpa da fruta no sabor de café ardendo na língua na gosma do amor e seus odores o dia compunha sua sinfonia sempre a sorrir
Era como soava o tal sorriso (que já nem sei rebento de meu pensamento) por sobre as casas os apartamentos sua melodia sobrevoava as copas das árvores, a seiva das folhas mudas do Cemitério da Consolação Como um fulgor, um relâmpago sobre a tarde entre as lápides indiferente à morte ao aroma de destruição ali, entre os ossos os restos da carne, ali eu também o vi a sorrir
Como falar de seus lábios flamejantes? Quais palavras para o ouro de seus dentes? Seriam alvos, brilhantes? Azul, sua geometria? Em que espelhos refletia de cores sua algaravia?
Como descrevê-lo, se eu somente o via? Mas, por certo, ali havia o “kimoni cangianti delle luci”
de que falava Montale
Por certo, sem as grades de aço a lhe tolher os raios que passavam largos, inopinados; por certo, como um susto ferida aberta nos muros das casas (da antiga casa da rua Antonio Lobo am Campinas) por certo, nascendo entre os latões adormecidos pela ferrugem e o cristal finíssimo dos doces no mármore da pia
como um sopro de vento, mais que isso um furo no escuro da madrugada - ali, no quintal brotando do cimento duro havia o sorriso
penetrando pelas brechas do assoalho da cozinha sobre o cheiro azedo do queijo-talho a dispersar baratas moscas (drosófilas) à volta das bananas das compotas (tão meladas que grudavam no céu da boca)
pelas franjas das toalhas de renda nas asas das xícaras chinesas invadindo quartos, salas côncavos, fendas portas de armários malas fundo de gavetas os segredos das vidas manchando privadas azulejos pias velhas malhas fedendo a mofo o pote de camisinhas lençóis de linho inglês
e as partes mais íntimas dos cachorros dos gatos os álbuns de retratos as caixas de sapatos os enigmas mais obscuros da memória
ele entrava
sem cerimônia sem pedir licença dissolvendo a cristaleira em fachos minúsculos insuflando o vôo dos lençóis o canto do bem-te-vi o cânhamo dos urinóis
Este sorriso (não-descrito) insolente, primitivo incandescente quase (ou deprimido nos dias cinzas)
este sorriso (que não está em algum livro) não pede passagem chega, se instala (nega ser tímido) se abarca, penetra feito faca afiada nos jardins entre as rosas e os jasmins entre as folhas orvalhadas entre as vozes as engrenagens da cidade que acorda
Este sorriso interdito que se esconde nos vãos das pálpebras entre as cobertas nas palmas das mãos boiando na água fria na pedra da pia na pasta de dentes vaga pedraria incrustada nos lábios (do dia?)
Este sorriso branco branco além do branco (quase transparente) refletido no espelho sem cheiro de hortelã de desodorante de brilhantina dos cabelos (no tempo em que se usava brilhantina nos cabelos) de graxa na ponta dos dedos de meleca do nariz de pigarro catarro amarelo verde (de meu pai e meu avô de tanto cigarro) de porra de punheta escorrendo no ladrilho do chuveiro
este sorriso que não se vê se pode sentir revela em seu desenho de madrepérola na dura cara do cão negro que nos jardins passeia pela coleira prisioneiro
este sorriso revela sorrateiro mais um dia que se inicia
Inaugura o dia a des-imagem do sorriso rebrilho e quilhas pré-verbo pré-nome: palavras iluminadas “rastilho de luzes sobre pedraria”
é risco na pele filete de sangue no semblante da manhã
este sorriso (ilusão da retina) fedendo a diesel gasolina e carvão combustível espreita nas esquinas na lama das calçadas nos sapatos nas barras das calças encharcadas de chuva
este sorriso refletido no cimento coberto de óleo mistura-se aos carros rodas de ônibus borracha de pneus fumaça
de motores e lojas de móveis vazias repletas de fantasmas esqueletos nos armários nas gavetas bares pontos de bicho padarias milhares de pernas e bundas e peitos e olhos e mãos que não se tocam lábios que não se beijam e não falam e só cospem e buzinas que não se ouve de tão altas e o ronco surdo dos prédios dos bancos dos hospitais das barracas dos camelôs da cidade que nunca sorri na sua pressa e nem vê o sorriso escondido pelo dia em suas frestas de esgotos água podre escorrendo pelo meio-fio e um cão lambendo a própria bunda e cheirando a merda e a urina que ficou pelas brechas do calçamento o cão por um instante pára volta a cabeça olha as nuvens disformes no céu e parece farejar algo é um instante infinitesimal pode ser medido em milissegundos mas suficiente para o cão perceber que existe algo ao seu lado acompanhando seus movimentos obscenos como se o dia houvesse mudado de cor ou simplesmente de face o cão cão sabia como só os animais parecem saber ou entender uma mensagem cifrada no ar um sussurro inaudível que vem do mar das montanhas ou de mais além só eles parecem saber
- Quem me sorria na multidão sonolenta?
- O dia rompendo o hímen da noite ou da vida?
Não sei ninguém sabia ninguém respondia
- Quem me sorria neste céu de tormentas?
O dia fecundando a noite com outro dia?
Não sei ninguém sabia ninguém respondia
este sorriso que está aqui e em todo o lugar no rosto do homem-bomba em Bagdá nas montanhas enterradas do Afeganistão na luminosidade ardente da terra de meus ancestrais Miziara ao norte de Beirute de frente ao Mediterrâneo donde séculos nos contemplam
o sorriso, ali no fuzil azeitado do Hesbollah na marcha-fúnebre de passos contados, de carcará homens de negro marcham para a morte a sorrir, lá ou também
ali, em Jerusalém, na via crucis do Cristo a sorrir entre os pássaros alados do Hamas e os helicópteros mortíferos de Israel, lá, onde não há pombas, nem paz
lá ou ali, no Complexo do Alemão, o sorriso infantil, mirim de um avião ali ou lá na Irlanda, em Dublin ou em Hortolândia, desdentado o sorriso explosivo do PCC a explosão sorridente do Ira!
Ali, na pedra de crack, no papelote de alumínio na pasta nobre, no éter, o sorriso vil e feroz o dia ainda assim a sorrir
O sorriso do dia não nasce do nada possui sua própria sintaxe sua ordem (do dia?) como a noite estrelada a chuva na estrada o sol que se esconde por trás da verde mata
O sorriso do dia não anda à toa possui seu próprio itinerário seu mapa (sua bússola?) como o ônibus lotado às seis da tarde como um pássaro migratório rumo ao sul imaginário como as pegadas de algodão de um gato pela sala
O sorriso do dia tangencia as casas as amuradas, os beirais dos quartos e suas arritmias noturnas, suas plumas que espetam a luz (do dia?)
O sorriso do dia passa ao largo das amoreiras dos canteiros de rosas, do húmus (do dia?) das folhas quietas do umbuzeiro das lagartas amarelas rastejando sobre o sumo da terra
E, mal surgiu, (o sorriso do dia) se esconde nas covas, nas hortas nas touceiras daninhas entre pés de alface raízes, furinhas e sonoras melancias
Ver-se. Tocar-se não se permite se esconde esse sorriso: Borboleta, volta ao casulo; À casca, torna o fruto. Inconsútil como o próprio dia
NO NECROTÉRIO, NA
CASA VAZIA
O sorriso do dia também pode ser frio - do cadáver na mesa de necropsia – pode esconder outro sorriso de motivo (visão do?) desconhecido
pode ser vivo também emplastrado de titica de galinha, grãos de milho pé de chuchu e abobrinha pode ter perfume de bife acebolado inundando a cozinha da casa vazia de suas paredes de alvenaria
Pode ser matreiro o sorriso do dia de nhô veio na porteira do sítio picando fumo prum cigarrim de pito pode ser faceiro o sorriso do dia de moça nua na cachoeira a água limpa limpa faiscando nos olhos negros negros feito os pentelhos feito os olhos do eu-menino tremeluzindo de surpresa e medo e sorrindo
O sorriso do dia pode ser aberto como as portas da catedral da cidade do interior São José do Rio Preto Do rio que era mais turvo que preto Turvo de bagres e lambaris lodaçal mais que turvo turvo verde escuro co’a margem coalhada de figos maduros esperando a vida perdida num remoinho num segundo rio de condenados que levava almas, todas as almas pro fundo do mundo: Zequinha, Maria do Carmo, Eurípedes (que tinha nome grego porque o pai era poeta, dito sertanejo), Bilu, João do Prego, Marta Maria de Castro Aguiar Vidal (de nome tão enorme numa criatura de Deus tão pequena, como disse o padre Júlio), Juvenal, Roberto Henrique Paulo Pedro Manoel Bispo Cruzinha (que tinha esse apelido porque de tão magrinho quando abria os braços mais parecia um crucifixo) as gêmeas Rosineide e Rosicler todos eles afogados num dia de março num dia de sol quente quando o ônibus da viação Cometa despencou na ribanceira e as ferragens caiadas de ferrugem se misturaram com o turvo do rio turvo turvo turvo mais que turvo verde escuro carregando as almas num remoinho num segundo pro fundo do mundo
Rio que tinha vida própria seu próprio ritmo que seguia seu curso limando as pedras arando a margem os cascalhos da terra rio que se estendia pra lá do sorriso do dia pra lá dos dias dos tempos alheio à vida dos homens à sua volta rio que não sorria como o dia apenas corria em silêncio como o verso do poeta “sem foz nem começo”
NA CIDADE DOS LOUCOS
O sorriso do dia pode ser de momento raio no crepúsculo mudo iluminando o silêncio
pode ser uma aparição um cloasma, um fantasma que mete medo mesmo sem se ver
pode ser uma ilusão de ótica pode ser um estrondo na madrugada
pode ser um coração disparado uma flor na palma da mão
o sorriso do dia pode ser as cores vivas da primavera pode ser uma criança toda suja de terra
pode ser a chuva no fim da tarde de verão pode ser tudo e nada pode ser só invenção
O sorriso do dia está ali no meio da terra vermelha no canto da pedra que escora o rio e suas barrancas, ali no estrume das vacas nos cavalos, nas patas dos burros, nas cercas farpadas na beira da estrada de terra lixada, ali orquestra de notas claras lapidando gemas raras cintilando nas águas pardas o sorriso do dia, ali, se esconde da árvore a fronde nem qualquer um pode ver nem eu, nem você
O sorriso (do dia) se abre como uma flor matinal dessas que brotam nos campos (mas também nessas cidades- dormitórios que cercam São Paulo) flores, que sequer têm nome estrela-guia no céu à espera do sol o sorriso (do dia) rebrilha mais que girassol
O sorriso do dia está ali florindo lilazes na terra gasta ali no meio do caminho dos poetas sombra às minhas costas ali posso vê-lo quase tocá-lo miragem baça espremida entre os galhos das árvores batidas pelo vento de maio
ali à roda das crianças e suas asas brincando gritando zunindo em volta da grama que nasce opaca da terra dos mortos à roda das crianças brincando zunindo gritando nos jardins que cercam a terra dos mortos
O sorriso do dia está ali (não vês?) pássaro pousado (ainda que sério) nos portões do cemitério de Franco da Rocha (a cidade dos loucos)
O sorriso do dia está ali (não vês?) entre as lápides no vão dos túmulos (no não do mundo) à tua espera (tua última quimera?) entre as pedras secas onde não brotam raízes na margem suja do rio Juqueri
ali no pio da coruja no vôo da pipa no telhado de zinco do necrotério
ali nas flores murchas do último velório no próximo terno do próximo defunto no choro morno da nova viúva
ali no caixão de ordinária madeira (morada derradeira) da Funerária Seixas onde o falecido (como o dia) parece sorrir, feliz, sem queixas
ali no seguir do féretro de poucos metros no préstito calado (e rápido) dos ex-amigos (das ex-amantes)
ali na cova rasa de pouca medida como a terra batida de tão pouca vida
ali em Franco da Rocha na cidade dos loucos o sorriso do dia sorria arreganhando dentes à mostra
fazendo graça com a loucura nossa
Na cidade dos loucos até o sorriso do dia (que ninguém vê) é diferente
até o dia (que deveria ser como qualquer dia) não é como o dia que a gente vê
Na cidade dos loucos tanto o sorriso como o dia se movimentam pelas mentes (dos ditos sãos e dos loucos ditos) de modo incongruente para sempre perdidos
ainda assim os ditos sãos e os loucos ditos o sorriso do dia não conseguem ver (nem eu, nem você)
Carlos o débil não obstante considerado um visionário (na cidade dos loucos) o sorriso não viu, passado quando lhe perguntavam se tinha visto do dia o sorriso sorria (amarelo) pulava, batia palmas, gritava de alegria mas do sorriso, passado nem ele não sabia
Beladona, a dama famosa do prostíbulo perto da estação de trens de subúrbio (lá, na cidade dos loucos) era só sorrisos em seu quarto escuro (de que se ria bem se sabia) mas também ela não via o dia a sorrir (entre suspiros, leite de rosas e alfazema sorrindo, sem dentes, dormia sem saber se sorrir também era ofício do dia)
Manoel, o mercador tísico, de pálida tez (como as barbas brancas e o branco branco, mais que branco de seu olho azul) se dizia físico (às vezes químico) mas de labor mesmo vendia brincos, colares, miçangas bijuterias na estação de trem de subúrbios (no centro da cidade dos loucos) e se sorria sem saber de quê
e se sorria, sorrisos também vendia às moças que passavam para o trabalho e ao vê-las arfando o busto em seu passo curto, bandalho o tísico ainda mais sorria mas do sorriso delas ele nem sabia.
As moças (na cidade dos loucos) só pensam em casar noite e dia trabalham na espera de um marido encontrar
As moças (loucas de amor) tentam rezar na esperança vã dos maus pensamentos afastar
(mas quando a noite vem sonham e se molham se molham e sonham apertam as pernas e gemem também)
As moças (na cidade dos loucos) mesmo as que não são moças fazem pouco do destino incerto repartem a solidão de amor com quem estiver mais perto
trabalham nas lojas se esfalfam fábricas limpam janelas escovam privadas
todo dia, toda hora sorriem por nada pela piada sem graça de quem se namora
se riem de tudo das desgraças do mundo de tão avoadas, desgraça maior é não estar casada
Os homens (na cidade dos loucos) não querem casar casar para quê se podem meter sem se comprometer?
só casa quem pode quem tem emprego quem tem salário quem quer sossego dormir no horário
só casa quem pede por moça boa que lhe beije a mão e a boca lhe cozinhe o feijão lhe lave a roupa
só casa quem fica marcando bobeira não usa borracha não cuida da pica e só faz barriga
Os homens (na cidade dos loucos) também trabalham nas lojas também se esfalfam nas fábricas mas não limpam janelas muito menos privadas
nos domingos não vão na igreja só sabem de bola de sentar no bar pr´uma boa cerveja
Os homens (na cidade dos loucos) não sabem rezar depois do almoço (quando tem almoço) se deitam na cama plantando roncos
fazem a sesta mas não fazem festa sonham com mulheres de outros talheres, de outras peças
Os homens (na cidade dos loucos) têm vergonha de parecerem frouxos
quando se casam das mulheres são donos e, por um nada, estralam-lhes socos;
se ficam cornos puxam da faca (que revólver e bala são para poucos) puxam da faca e rasgam a carne marcam a face das pobres moças pobres ou as ferem de morte
ferem e não se arrependem pois as mulheres “se são vadias bem não merecem um tico de vida”
Essa é a lei dos homens (na cidade dos loucos) lei não-escrita, só dita, que serve a todos
Na cidade dos loucos, como os homens, todos os cães andam soltos feito lobos em matilha a espreitar a vigiar o sorriso de qualquer dia
PORQUE bem sabem os cães e os loucos:
o dia e seu sorriso são de relance uma pose para fotografia um piscar de olhos um olhar brilhante que num instante, xispam, se somem
O dia e seu sorriso são assim de repente a cauda de um cometa errante o brilho de uma estrela cadente O dia e seu sorriso são para sempre rápidos a luz do verão a chuva de aluvião um beijo ardente roubado no alpendre
O dia e seu sorriso são somente uma semente a carne da fruta entre os dentes
O dia e seu sorriso quem é que sabe se, tanto esconder, esquivar, driblar, (sem sorrir) nem existiam?
Mas na cidade dos loucos todos (homens, mulheres, cães e poetas aleijados de muletas, as barbas dos profetas) todos juram que viam
ali, entre as pedras marcadas, a sorrir o sorriso do dia.
São
Paulo, maio-junho, 2009 |