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INÉDITOS E DISPERSOS . poemas esparsos



O SORRISO DO DIA



Havia entre as pedras

o sorriso do dia

 

            nas calçadas, ruas

                        avenidas

            entre edifícios e rostos

                        de alvenaria

            entre paralelepípedos, asfalto, das calçadas

 as guias

                        ali

                (oculto entre tijolos quebrados

                 flores e gramas

                 de um canteiro inamovível

                 de concreto)

                                   existia

                                   simplesmente

                                   existia

entre as pedras caladas

o sorriso

do dia

 

Ninguém me disse

eu mesmo o vi, aberto

            com seus dentes alvos

            com seus lábios rubros

no semáforo da esquina

entre os carros

entre mendigos pedintes

feito um bicho

            escondido

ali

            escondido

            feito caça, presa

            raposa na floresta

            urso em sua gruta

            onça na mata

o sorriso

            do dia

 

Nunca pensei

que pudesse sorrir

            (um sorriso frouxo

            ou riso claro

            com dentes iluminados

            ou mesmo cariados)

o dia

 

nem que

por isso

se precisasse esconder

 

 

Marca no calendário

            semente

na lavoura do Tempo

ente imaginário

            quem diria

possuísse boca

            língua

            depressão

            ou azia

o dia

(quanto mais

            fosse dado

            à alegria)?

 

Já ouvi falar

de dias tristes

noites alegres

“a tarde chorava

quando chovia”

 

Já ouvi falar

de um cão sorrir

(como na canção

popular) ao latir

 

Já ouvi cantar

ao amanhecer

e gritar como pássaros

ao entardecer

 

Mas sorrir

jamais ouvi dizer

pudesse o dia

– qualquer dia –

sorrir

 

Útero de novas horas

filho de árabes

            (egípcios)

operário incansável

com suas mãos indomáveis

a girar as polias do vento

sobre o calendário

acreditei fosse somente usina

            de rugas

            de pêlos brancos

            de ossos frágeis

fosse sisudo

como um bancário

executivo sério

Ministro de Estado

operador da bolsa dos Séculos

            ou agente funerário

(e como tal

jamais sorrisse)

 

Filho e pai de profecias

senhor dos pássaros

            e das amêndoas bíblicas

da cal que seca os lábios

das abelhas e seu trabalho

            artífice

            da “noite magnética”

            ourives

            de estrelas

            metrônomo

            dos sonhos

            sétimo

            sendo primeiro

            sempre

            sem sorrir

            (pelo menos assim

            me diziam)

 

 

 

E ali estava ele

nas frinchas

das pedras

do jardim

nas frestas

das janelas

dos quartos

nas torres

de marfim

das lojas

dos botequins

embaixo

das mesas

das saias

das moças

entre o cu

e a vagina

ali

na cona do mundo

no aroma dos pentelhos

o dia e

seu sorriso

ali

no perfume

das flores

no azul

dos mares

entre o céu

e as estrelas

mais um astro

entre tantas

galáxias

o sorriso

do dia

 

Onde quer que eu fosse

como um bálsamo

            para o diesel nas veias

como um abrigo

            para a chuva ácida nos pulmões

como pétala de rosa

            no coração

o dia e

seu sorriso

 

Acompanhando meus passos

            como minha mãe

            velava meu sono

            como um cão

            guarda seu dono

            como o verão

            prepara o outono

o dia e

seu sorriso

 

Tomando-me pelas mãos

            como um guia

            escolta o cego

            como a madeira

            se une ao prego

            como Pedro

            dizendo “nego”

o dia e

seu sorriso

 

                                   - Ou não, pois

 

            o dia -qualquer dia-  

            não tem sorriso

            ou lágrimas

            um dia é só um dia

            sem alguma metáfora

            ou alegoria

 

            O dia -qualquer dia-

            possui apenas sóis

            nuvens chamuscadas

            pálidas, iridizadas

 

            o dia -qualquer dia-

            carrega no ventre o doce amargo –

            a promessa

                        do recomeço

                                   da vida

 

 

            (e falha)

pois quanto mais o dia passa

            mais o corpo acaba

            mais a razão finda

            mais a morte se aproxima

 

 

 

Um dia -qualquer dia-

            não tem sorriso

                        como as crianças

                        em rodas elétricas

                        como as velhas

                        (mesmo caquéticas)

                        se rindo

                        sem dentaduras

                        únicas ou duplas

                        se rindo

                        às catadupas

                        como bêbados

                        ao redor das putas

 

Afinal, quem foi que disse

tamanha heresia?

Em qual geografia

(livro, ciência, religião, sabedoria)

existe escrito

que existe o sorriso

do dia?

 

De outro lado

se sorrir é humano

(como a voz dos camelôs

os versos de meu avô

o pigarro de meu pai)

se sorrir é insano

(como a gargalhada dos débeis

as fábricas e seus decibéis

dos automóveis as buzinas)

            sorrir o dia, então

            não poderia?

 

 

 

 

 

Se sorrir é premente

(como o amor ausente

a fala dos videntes

para a vista as lentes)

se sorrir de repente

            tem a ver

com a música do fogo

com o silêncio transparente

            tem a ver

            com a mordida no fruto

            os cabelos ao vento

            o açúcar de junho

então, por um momento

            possível não seria

            sorrir

                        o dia?

 

 

Talvez não seja assim

de simples poder

ou tola querência

Talvez assim não seja

por proibirem alguns

e outros evitarem

por covarde prudência

ou vã sapiência

 

Ou talvez seja assim

desde que ordenado

catalogado, codificado

por rábulas, burocratas

ou qualquer sorte

de monarca

 

Pois nos bares, restaurantes

cartazes dizem

“Dê bom dia. Sorria.”

Nos caixas eletrônicos

nos bancos, repartições, elevadores

também se diz:

“Você está sendo filmado. Sorria.”

Nos estádios de futebol

não cansam de pedir:

“Violência não. Sorriso sim.”

Nos outdoors nos magazines

no olho cego da TV

todos um sorriso querem ver

Até no lusco-fusco dos drive-in

na cama do motel

no clitóris da menina

no suco de sua vagina

tudo parece sorrir

 

(por que então o sorriso

do dia não poderia

também existir?)

 

 

Pois o sorriso está

entranhado

na carne do dia

 

entranhado

como fio na teia

como sangue nas veias

como no mar a areia

 

entranhado

nas imagens voláteis

nas capas de revista

(miragens versáteis

de sedução e conquista)

 

entranhado, feito espinho

farpa, estrepe

embaixo das unhas

das putas, das madamas

e suas manicuras

 

entranhado, feito cisco

grão de pó, caco

de vidro nas conjuntivas

dos olhos, no leitoso olho

das câmeras de segurança

 

incômodo, faceiro

escuso, brejeiro

seja o que seja

o sorriso

            no dia

                        a sorrir

 

 

Branco feito

             lâmina

de calcário

teclado

de piano

anúncio

de dentifrício

            em tudo o dia

            branco branco

            de tanta luz

            parece sorrir

 

Mesmo o dia estatelado

nos convés dos navios

nos guichês de crediário

nas matinês do cinema

na solidão do poema

 

Mesmo o dia encarcerado

nas ondas do rádio

nos crimes de amor

no suor do ônibus

nos vagões do metrô

 

Mesmo o dia emplumado

no céu sem pássaros

no mar dos náufragos

na nau dos loucos

no sexo virtual

 

branco branco                        

como as flâmulas da paz

os lençóis dos hospitais

 

Pois ali estava ele

- o dia -

a sorrir

 

entre as pedras

- o sorriso do dia -

                                   a luzir

 

 

 

O sorriso do dia

separa a luz da luz

o sorriso do dia

            itinerante

            alumia

            é calmaria

            do vento

            que nos guia

 

Nos versos do poeta

na flor do dia havia

arrepios de Primavera

manobras de Outono

na chama do silêncio

            repousava

            até apetecia

de tão claro

seu sorriso

 

Brandindo asas

pulsava

na gruta intacta

de pêlo e breu

e cólera

nos olhos

quem sabe um ricto

um esgar de dor

não o sorriso sorriso

mas outra coisa

que também parecia

sorrir

 

 

 

O alarido

em volta da casa

anunciava

            em alvorada

            alvoroço de cores

            e palavras

anunciava

que o dia sorria

            para o dia

            (não para mim

            ou para você)

            habitava apenas

            o próprio ser

 

em leves rumores

na polpa da fruta

no sabor de café

ardendo na língua

na gosma do amor

            e seus odores

o dia compunha

sua sinfonia

sempre a sorrir

 

 

 

Era como soava

o tal sorriso

(que já nem sei

            rebento

de meu pensamento)

por sobre as casas

os apartamentos

sua melodia

sobrevoava as copas

das árvores, a seiva

das folhas mudas

do Cemitério da Consolação

Como um fulgor, um relâmpago

sobre a tarde

            entre as lápides

indiferente à morte

ao aroma

            de destruição

ali, entre os ossos os restos da carne, ali

            eu também

o vi

            a sorrir

 

 

Como falar de seus lábios flamejantes?

Quais palavras para o ouro

            de seus dentes?

Seriam alvos, brilhantes?

Azul, sua geometria?

Em que espelhos refletia

de cores sua algaravia?

 

Como descrevê-lo, se eu somente

            o via?

Mas, por certo, ali havia

o “kimoni cangianti delle luci”

de que falava Montale

           

 

            Por certo, sem as grades de aço

            a lhe tolher os raios

            que passavam largos,

                        inopinados;

            por certo, como um susto

            ferida aberta

            nos muros das casas

                        (da antiga casa da rua Antonio Lobo am Campinas)

            por certo, nascendo entre

            os latões adormecidos pela ferrugem

            e o cristal finíssimo

                        dos doces no mármore da pia

 

como um sopro de vento, mais que isso

            um furo

            no escuro da madrugada

- ali, no quintal

brotando do cimento duro

                        havia

                        o sorriso

 

penetrando pelas brechas

            do assoalho da cozinha

            sobre o cheiro azedo

            do queijo-talho

a dispersar baratas

            moscas (drosófilas)

            à volta das bananas

            das compotas

(tão meladas que grudavam no céu da boca)

 

pelas franjas das toalhas de renda

nas asas das xícaras chinesas

            invadindo quartos, salas

            côncavos, fendas

            portas de armários malas fundo de gavetas os segredos das vidas

            manchando privadas azulejos pias velhas malhas fedendo a mofo o pote de camisinhas lençóis de linho inglês

           

e as partes mais íntimas

            dos cachorros dos gatos

            os álbuns de retratos

            as caixas de sapatos

            os enigmas mais obscuros

            da memória

 

ele entrava

 

sem cerimônia

sem pedir licença

            dissolvendo a cristaleira

            em fachos minúsculos

            insuflando o vôo dos lençóis

            o canto do bem-te-vi

            o cânhamo dos urinóis

 

Este sorriso (não-descrito)

            insolente, primitivo

            incandescente quase

                        (ou deprimido

                        nos dias cinzas)

 

este sorriso (que não está em algum livro)

            não pede passagem

            chega, se instala (nega ser tímido)

            se abarca, penetra feito faca

                        afiada

nos jardins entre as rosas e os jasmins

            entre as folhas orvalhadas

            entre as vozes as engrenagens

                        da cidade

                        que acorda

 

 

 

Este sorriso

            interdito

que se esconde nos vãos

            das pálpebras

entre as cobertas

            nas palmas das mãos

boiando na água fria

            na pedra da pia

            na pasta de dentes

            vaga pedraria

            incrustada nos lábios

            (do dia?)

 

Este sorriso

            branco branco

            além do branco

            (quase transparente)

            refletido no espelho

            sem cheiro

de hortelã de desodorante

de brilhantina dos cabelos

(no tempo em que se usava brilhantina nos cabelos)

de graxa na ponta

dos dedos

de meleca do nariz

de pigarro catarro amarelo verde

(de meu pai e meu avô de tanto cigarro)

de porra de punheta

escorrendo no ladrilho

            do chuveiro

 

este sorriso que não se vê

se pode sentir

            revela

em seu desenho de madrepérola

na dura cara do cão negro

            que nos jardins passeia

            pela coleira prisioneiro

 

 

 

 

este sorriso

            revela

sorrateiro

mais um dia

que se inicia

 

 

 

Inaugura o dia

a des-imagem

do sorriso

            rebrilho e quilhas

            pré-verbo

            pré-nome:

            palavras iluminadas

            “rastilho de luzes

            sobre pedraria”

 

é risco na pele

filete de sangue

no semblante

            da manhã

 

este sorriso

(ilusão da retina)

fedendo a diesel gasolina e carvão combustível

espreita nas esquinas

na lama das calçadas

nos sapatos nas barras das calças encharcadas de chuva

 

este sorriso

            refletido

no cimento coberto de óleo

mistura-se

aos carros rodas

de ônibus borracha de pneus fumaça

 

de motores e lojas de móveis vazias repletas de fantasmas esqueletos nos armários nas gavetas bares pontos de bicho padarias milhares de pernas e bundas e peitos e olhos e mãos que não se tocam lábios que não se beijam e não falam e só cospem e buzinas que não se ouve de tão altas e o ronco surdo dos prédios dos bancos dos hospitais das barracas dos camelôs da cidade que nunca sorri na sua pressa e nem vê o sorriso escondido pelo dia em suas frestas de esgotos água podre escorrendo pelo meio-fio e um cão lambendo a própria bunda e cheirando a merda e a urina que ficou pelas brechas do calçamento o cão por um instante pára volta a cabeça olha as nuvens disformes no céu e parece farejar algo é um instante infinitesimal pode ser medido em milissegundos mas suficiente para o cão perceber que existe algo ao seu lado acompanhando seus movimentos obscenos como se o dia houvesse mudado de cor ou simplesmente de face o cão cão sabia como só os animais parecem saber ou entender uma mensagem cifrada no ar um sussurro inaudível que vem do mar das montanhas ou de mais além só eles parecem saber

 

- Quem me sorria

na multidão sonolenta?

 

- O dia

rompendo o hímen

da noite ou da vida?

 

Não sei

ninguém sabia

ninguém respondia

 

 

- Quem me sorria

neste céu de tormentas?

 

O dia

fecundando a noite

com outro dia?

 

Não sei

ninguém sabia

ninguém respondia

 

 

este sorriso que está aqui e

em todo o lugar

            no rosto do homem-bomba

em Bagdá

            nas montanhas enterradas

do Afeganistão

            na luminosidade ardente da terra

de meus ancestrais

                        Miziara

            ao norte de Beirute

de frente

ao Mediterrâneo

donde séculos nos contemplam

 

o sorriso, ali

no fuzil azeitado do Hesbollah

na marcha-fúnebre

de passos contados, de carcará

homens de negro marcham

para a morte

a sorrir, lá ou também

 

ali, em Jerusalém,

na via crucis do Cristo

a sorrir

entre os pássaros alados

do Hamas

e os helicópteros mortíferos

de Israel,

,

onde não há pombas, nem paz

 

ou ali,

no Complexo do Alemão,

o sorriso infantil, mirim

de um avião

ali ou lá

na Irlanda, em Dublin ou

em Hortolândia, desdentado

o sorriso explosivo do PCC

a explosão sorridente do Ira!

 

Ali, na pedra de crack, no papelote de alumínio

na pasta nobre, no éter,

o sorriso vil e feroz

o dia

ainda assim

            a sorrir

 

 

 

 

O sorriso do dia não nasce

            do nada

possui sua própria sintaxe

            sua ordem

            (do dia?)

como a noite estrelada

a chuva na estrada

o sol que se esconde

por trás da verde mata

 

O sorriso do dia não anda

            à toa

possui seu próprio itinerário

            seu mapa

            (sua bússola?)

como o ônibus lotado

às seis da tarde

como um pássaro migratório

rumo ao sul imaginário

como as pegadas de algodão

de um gato pela sala

 

O sorriso do dia tangencia as casas

            as amuradas, os beirais

dos quartos e suas arritmias

noturnas, suas plumas

que espetam a luz

            (do dia?)

 

            O sorriso do dia passa ao largo das amoreiras

            dos canteiros de rosas, do húmus

                        (do dia?)

            das folhas quietas do umbuzeiro

            das lagartas amarelas

                        rastejando sobre o sumo

                                   da terra

 

 

 

E, mal surgiu,

(o sorriso

do dia)

se esconde

nas covas, nas hortas

nas touceiras daninhas

entre pés de alface

raízes, furinhas

e sonoras melancias

 

            Ver-se. Tocar-se

            não se permite

se esconde

            esse sorriso:

Borboleta, volta ao casulo;

À casca, torna o fruto.

            Inconsútil

            como o próprio dia

 

 







NO NECROTÉRIO, NA CASA VAZIA

O sorriso do dia também pode ser frio

- do cadáver

na mesa

de necropsia –

pode esconder

            outro sorriso

            de motivo (visão do?)

            desconhecido

 

pode ser vivo também

            emplastrado

de titica de galinha,

grãos de milho

de chuchu e abobrinha

pode ter perfume de bife acebolado

            inundando a cozinha

            da casa vazia

            de suas paredes

            de alvenaria

 

 

 

 

Pode ser matreiro

            o sorriso

            do dia

de nhô veio na porteira do sítio

            picando fumo

            prum cigarrim de pito

pode ser faceiro

            o sorriso

            do dia

de moça nua na cachoeira

a água limpa limpa

faiscando nos olhos negros

            negros feito os pentelhos

            feito os olhos do eu-menino

                        tremeluzindo

            de surpresa e medo

                        e sorrindo

 

 

O sorriso do dia pode ser aberto

como as portas da catedral

da cidade do interior

            São José

                do

                Rio

            Preto

Do rio que era mais turvo que preto

Turvo de bagres e lambaris

            lodaçal

mais que turvo turvo

            verde escuro

co’a margem coalhada

de figos maduros

esperando a vida

            perdida

            num remoinho

            num segundo

rio de condenados

que levava almas, todas as almas

pro fundo do mundo:

Zequinha, Maria do Carmo, Eurípedes (que tinha nome grego porque o pai era poeta, dito sertanejo), Bilu, João do Prego, Marta Maria de Castro Aguiar Vidal (de nome tão enorme numa criatura de Deus tão pequena, como disse o padre Júlio), Juvenal, Roberto Henrique Paulo Pedro Manoel Bispo Cruzinha (que tinha esse apelido porque de tão magrinho quando abria os braços mais parecia um crucifixo) as gêmeas Rosineide e Rosicler

todos eles afogados

num dia de março

num dia de sol quente

quando o ônibus da viação Cometa despencou na ribanceira

e as ferragens caiadas de ferrugem

se misturaram com o turvo do rio

turvo turvo turvo

mais que turvo

verde escuro

carregando as almas

num remoinho

num segundo

pro fundo do mundo

 

Rio que tinha vida própria

seu próprio ritmo

que seguia seu curso

limando as pedras

arando a margem

os cascalhos da terra

rio que se estendia

pra lá do sorriso

do dia

pra lá dos dias

dos tempos

alheio à vida

dos homens

à sua volta

rio que não sorria

como o dia

apenas corria em silêncio

como o verso do poeta

“sem foz nem começo”

 

 

 







NA CIDADE DOS LOUCOS

O sorriso do dia pode ser de momento

raio no crepúsculo

            mudo

iluminando o silêncio

 

pode ser uma aparição

um cloasma, um fantasma

            que mete medo

mesmo sem se ver

 

pode ser uma ilusão

            de ótica

pode ser um estrondo

na madrugada

 

pode ser um coração

            disparado

uma flor

na palma da mão

 

o sorriso do dia pode ser

as cores vivas da primavera

pode ser uma criança

toda suja de terra

 

pode ser a chuva

no fim da tarde

            de verão

pode ser tudo e nada

pode ser só invenção

 

 

 

O sorriso do dia está ali

no meio da terra vermelha

no canto da pedra

que escora o rio e suas barrancas, ali

            no estrume das vacas

            nos cavalos, nas patas

            dos burros, nas cercas

            farpadas na beira da estrada

            de terra lixada, ali

orquestra de notas claras

lapidando gemas raras

cintilando nas águas pardas

            o sorriso do dia, ali, se esconde

da árvore a fronde

            nem qualquer um pode ver

nem eu, nem você

 

O sorriso (do dia) se abre

como uma flor matinal

dessas que brotam nos campos

(mas também nessas cidades-

dormitórios que cercam São Paulo)

flores, que sequer têm nome

estrela-guia no céu

à espera do sol

o sorriso (do dia) rebrilha

mais que girassol

 

O sorriso do dia está ali

florindo

lilazes na terra gasta

            ali

no meio do caminho dos poetas

sombra

às minhas costas

            ali

posso vê-lo

quase tocá-lo

miragem baça

            espremida

entre os galhos

das árvores batidas

pelo vento de maio

           

 

            ali

à roda das crianças

            e suas asas

brincando gritando zunindo em volta

            da grama que nasce

            opaca

da terra dos mortos

            à roda

das crianças brincando zunindo gritando

            nos jardins

            que cercam

a terra dos mortos

 

O sorriso do dia está ali

            (não vês?)

pássaro pousado

            (ainda que sério)

nos portões do cemitério

de Franco da Rocha

(a cidade dos loucos)

 

O sorriso do dia está ali

            (não vês?)

entre as lápides

no vão dos túmulos

(no não do mundo)

à tua espera

            (tua última quimera?)

entre as pedras secas

onde não brotam raízes

na margem suja

do rio Juqueri

 

ali

            no pio da coruja

            no vôo da pipa

            no telhado de zinco

            do necrotério

 

ali

            nas flores murchas

            do último velório

            no próximo terno do próximo defunto

            no choro morno da nova viúva

 

ali

            no caixão de ordinária madeira

            (morada derradeira) da Funerária Seixas

            onde o falecido (como o dia)

            parece sorrir, feliz, sem queixas

 

ali

            no seguir do féretro

            de poucos metros

            no préstito calado (e rápido)

            dos ex-amigos (das ex-amantes)

 

ali

            na cova rasa

            de pouca medida

            como a terra batida

            de tão pouca vida

 

ali

            em Franco da Rocha

            na cidade dos loucos

            o sorriso do dia sorria

            arreganhando dentes à mostra

 

fazendo graça com a loucura nossa

 

 

Na cidade dos loucos

até o sorriso do dia

(que ninguém vê)

é diferente

 

até o dia

(que deveria ser

como qualquer dia)

não é como o dia

que a gente vê

 

Na cidade dos loucos

tanto o sorriso

como o dia

se movimentam

pelas mentes

(dos ditos sãos e dos loucos ditos)

de modo incongruente

para sempre perdidos

 

ainda assim

os ditos sãos

e os loucos ditos

o sorriso do dia

não conseguem ver

(nem eu, nem você)

 

Carlos o débil

não obstante considerado

            um visionário

(na cidade dos loucos)

            o sorriso não viu, passado

quando lhe perguntavam

            se tinha visto

            do dia

            o sorriso

            sorria

            (amarelo)

pulava, batia palmas, gritava

            de alegria

mas do sorriso, passado

nem ele não sabia

 

 

Beladona, a dama famosa

            do prostíbulo

perto da estação de trens de subúrbio

(lá, na cidade dos loucos)

            era só sorrisos

            em seu quarto escuro

(de que se ria

bem se sabia)

mas também ela não via

            o dia

            a sorrir

(entre suspiros, leite de rosas e alfazema

sorrindo, sem dentes, dormia

sem saber se sorrir também

era ofício do dia)

 

 

 

Manoel, o mercador tísico,

de pálida tez

            (como as barbas brancas

            e o branco branco, mais que branco

            de seu olho azul)

se dizia físico

(às vezes químico)

mas de labor mesmo

vendia brincos, colares, miçangas

            bijuterias

na estação de trem de subúrbios

            (no centro da cidade dos loucos)

e se sorria

sem saber de quê

 

e se sorria, sorrisos

também vendia

às moças que passavam

            para o trabalho

e ao vê-las

arfando o busto

em seu passo curto, bandalho

            o tísico ainda mais sorria

            mas do sorriso delas

            ele nem sabia.

 

 

As moças (na cidade dos loucos)

pensam em casar

noite e dia trabalham na espera

de um marido encontrar

 

As moças (loucas de amor)

tentam rezar

na esperança vã dos maus

pensamentos afastar

 

(mas quando a noite vem

sonham e se molham

se molham e sonham

apertam as pernas

e gemem também)

 

 

As moças (na cidade dos loucos)

mesmo as que não são moças

fazem pouco do destino incerto

repartem a solidão de amor

com quem estiver mais perto

 

trabalham nas lojas

se esfalfam fábricas

limpam janelas

escovam privadas

 

todo dia, toda hora

sorriem por nada

pela piada sem graça

de quem se namora

 

se riem de tudo

das desgraças do mundo

de tão avoadas, desgraça maior

é não estar casada

 

Os homens (na cidade dos loucos)

não querem casar

casar para quê

se podem meter

sem se comprometer?

 

casa quem pode

quem tem emprego

quem tem salário

quem quer sossego

dormir no horário

 

 

casa quem pede

por moça boa

que lhe beije a mão e a boca

lhe cozinhe o feijão

lhe lave a roupa

 

 

casa quem fica

marcando bobeira

não usa borracha

não cuida da pica

e só faz barriga

 

Os homens (na cidade dos loucos)

também trabalham nas lojas

também se esfalfam nas fábricas

mas não limpam janelas

muito menos privadas

 

nos domingos não vão na igreja

só sabem de bola

de sentar no bar

pr´uma boa cerveja

 

Os homens (na cidade dos loucos)

não sabem rezar

depois do almoço

(quando tem almoço)

se deitam na cama

plantando roncos

 

fazem a sesta

mas não fazem festa

sonham com mulheres

de outros talheres, de outras peças

 

Os homens (na cidade dos loucos)

têm vergonha

de parecerem frouxos

 

quando se casam

das mulheres são donos

e, por um nada,

estralam-lhes socos;

 

se ficam cornos

puxam da faca

(que revólver e bala

são para poucos)

puxam da faca

e rasgam a carne

marcam a face

das pobres moças pobres

ou as ferem de morte

 

            ferem

            e não se arrependem

            pois as mulheres

            “se são vadias

            bem não merecem

            um tico de vida”

 

Essa é a lei dos homens

(na cidade dos loucos)

lei não-escrita, só dita,

que serve a todos

 

 

 

Na cidade dos loucos, como os homens,

todos os cães

andam soltos

feito lobos

            em matilha

a espreitar

a vigiar

o sorriso

de qualquer dia

 

PORQUE

bem sabem os cães

e os loucos:

 

o dia

e seu sorriso

são de relance

            uma pose

            para fotografia

            um piscar

            de olhos

            um olhar

            brilhante

que num instante,

xispam, se somem

 

 

 

O dia

e seu sorriso

são assim de repente

            a cauda

            de um cometa

            errante

            o brilho

            de uma estrela

            cadente

O dia

e seu sorriso

são para sempre rápidos

            a luz do verão

            a chuva

            de aluvião

            um beijo

            ardente

roubado

no alpendre

 

O dia

e seu sorriso

são somente

uma semente

a carne da fruta

entre os dentes

 

O dia e seu sorriso

quem é que sabe

se, tanto esconder,

esquivar, driblar,

(sem sorrir)

nem existiam?

 

Mas na cidade dos loucos

todos (homens, mulheres, cães e poetas

aleijados de muletas, as barbas dos profetas)

todos juram

que viam

 

ali, entre as pedras marcadas, a sorrir

o sorriso

do dia.

 

                                               São Paulo, maio-junho, 2009






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