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ANTOLOGIA POÉTICA
POEMAS DE INVENTÁRIO DA LUZ (1999)INVENTÁRIO DA LUZ (fragmentos) 4. O que tem de puro este céu são os luzecus do bosque de jacarandás. Carpa dourada do rio fagulha na mata olho de gato na estrada nada tem tanto rebrilho. Você olha e não vê. Cega de alvorecer. 5. A boca sobre o lume repousava. De lado o flanco reclinavas. Eras gruta pétala de violeta túrgida de águas. Eras ventre entre conchas minha morada. 6. Os acordes dourados do sol te acordam incendeiam as telhas a cal límpida das paredes. A vida em si bemol arde cheia de pernas clareia a cidade. O olhar das folhas meus gerânios de nuvens escuras são inocentes como a brisa da tarde. Aguardam a culpa das tempestades. 7. Transversal ao corpo a chuva cai a cintilação das quaresmeiras. Rente à primeira pedra busco o repouso do arco-íris e o cinza das janelas é um pouco de céu. Ouço o amanhecer. 8. Cal crua brilhante quase espuma. Depois da tarde o perfume da lua imatura se instaura. Não cabe na terra a beleza da estrela úmida. Resta a espera única do fogo que tuas mãos incendeia. 14. A lua a prumo em linha reta quase perfeita teu corpo desvela. Assim lembro de ti: claridade cega vertigem que embala velas sem rumo. Assim te repenso: rarefeita, aérea quase invisível - fragmento de aquarela. 16. O tumulto dos sentidos quando os dias raiavam. A luz dos rouxinóis ocupava os espaços mais claros. Como o cheiro da tinta ainda fresca colorindo as magnólias. Cantavas. DEPOIS DA ÁGUA Fogo. Ali onde a terra dói habito. Entre pedras do verão e o torpor dos pássaros tropeço. Mais nada resta a dizer ou quase. À espera da água. ODE MARÍTIMA (fragmentos) 1. Assim ao lado dos olhos um raio fende a alma. Como a folha que deseja ser pássaro e falha. Tens a relva. Mas esta são os cabelos da terra. No horizonte há um barco de muitas velas. ca quem te entregas? 3. Teu corpo estendido entre as fímbrias da tarde a linha tímida das ondas o suave roçar da espuma; brancura da luz do sol em reflexos transformada; cintilam as gotas o mar em gaivotas; as mãos pedem em brasas. ÁGUA (a Robert Lowell) Era um canto na beira da praia. Ficávamos nós dois à espera de nosso encontro. E, toda manhã, o Sol nascia sem palavras; fazia frio e havia nuvens espessas no céu. Dali avistávamos as ondas de mentiras que constroem o dia. Dali - nosso refúgio - víamos a luz anil iluminando as colinas úmidas. Ficávamos assim, os dois juntos, abraçados, esperando. No fim, a água também era muito fria para nós. MADRIGAL O dia totalmente sob controle. Aves do paraíso aterrissam em águas onduladas. Segurando uma xícara de café minha filha disse que dormiu bem. O mar, defronte à janela, é uma verde promessa. Pelo menos não há perigo de sermos atacados nas dobras da tarde. Escrevi um poema. Me deixa ler? Não, ainda não é tempo. Tem dia que as palavras não são tão urgentes. NAUFRÁGIO Ombros submersos. Homem ao mar! É assim a vida quando se ama: a manhã é densa e, a noite, triste feito romã na fruteira. Gostava que a palavra não tivesse cheiro, fosse infrutífera, para não ofender a ilusão do amor eterno. Não é bem assim que as coisas acontecem ou deixam de acontecer. Nem tudo é obra do acaso - no pano verde um simples dado a rolar. Por exemplo: o Sol, a vertigem do dia, a cor do luar. A vida é mesmo assim: ombros submersos; homens ao mar. ESPERA Demora amanhecer sobre o oceano vazio. |