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ANTOLOGIA POÉTICA
POEMAS DE PELA ÁGUA (2006)EPITÁFIO Uns peixes se aproximam: cardume branco (esquadrilha de nuvens) do lago na superfície. Cantam pássaros ou somente o invisível rumor de motores apressados na soleira da tarde? Nem há lua nem sol, nem silêncio de estrelas como gostávamos. Uns peixes se aproximam da película verde: buscam a flecha de luz, o gemido arenoso que vem do fundo. Tua morte se parece com a morte. NOME Este lago podia chamar clepsidra: simplesmente relógio de água - marcando o tempo fluido. PALAVRA Minha flor fende rochas, antes, delas brota. Como água límpida, afiada, aos poucos (esmeril do tempo) pedras desgasta em cascata, minha flor da terra aflora depois se fecha. Como água, passa. NAVEGANDO Deitados juntos na beirada dos musgos. Somos assim: juncos e, de repente, a correnteza entre as pedras. Sem rumo. Pelas águas alcançamos a foz. Somos lembranças. Dos barcos. NA FONTE A moça se abaixa para colher água na bica. (Gasta o mesmo tempo para levantar o torso, levar a mão à boca.) Atrás, na fila da fonte de pedras líquidas, meço suas ancas, pressinto o tumulto nas entranhas, ouço o murmúrio da sede, a secura das vísceras. Quem nos ofertou o desejo prometeu a vida? NÓDOA À fundura desses braços inda que amplos não cabe teu corpo que meu amor procura. É como o brilho opaco do quartzo: falso. É como a palavra incapaz de dizer o nome. É como água no celofane: mancha, profana. LÁGRIMA Sentia o cheiro da chuva; o grito dos pássaros, a consistência dos musgos antiqüíssimos. Tentava entender a mecânica das gotas ácidas alinhadas, uma a uma, o silêncio cinza das nuvens onde o que restou do sol pousava. E o corpo sofria feito ave sem asas: de sede, se afogava. |