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BIBLIOGRAFIA . poesia
POEMAS DISPERSOS (2000 - 2007)Nenhuma chama. Ou ruído de sombras. A escalada do sol. Apenas. Em espiral de nuvens. Do sol. Seus ombros curvados. Violáceos. Nas platibandas de março. Do sol. Apenas. Do dia o início. Existe um tempo. Único. Um tempo. De ouvir a voz rouca das árvores. Das águas, o sussurro. Um tempo. De ouvir. O silêncio da luz. Da luz. Que vem do chão. Um relâmpago, um estampido. Brilha. Ecoa. Vê. Ouve. Lembra: nem só de ruídos é o poema. Nem de cores. Nosso jardim: Apenas rosas. Inflamadas. “Como a morte longínqua.” Apenas rosas. Como a voz dos poetas. Das crianças. Sonâmbula, a lua. Branca pela ausência. Ainda. E um vaso iluminado. De tílias. É precário o sol. Ainda. E a memória. ....... .. O sol despindo. A cal dos muros. Do quintal. ?Sol-corazón, piedra que late?. Assim desveste. Desveste a brancura da pele. Goteja. Fiapos. De luz madura. Goteja. Entre gosma de lesmas. Entre folhas. De parreira. Entre folhas. A transparência. Dos cristais de orvalho. Na cozinha. O leite talha. Sobre a mesa. ....... .. Ergue os braços. Lentamente. A luz virgem. Da manhã. Espreguiça. Esfrega os olhos. Põe-se a correr. A luz. Entre árvores. Quaresmeiras. Quase azuis. Atrás de sua brancura. Num corredor de luas. Vão pássaros suspensos. Atrás de sua brancura. Vão. Na fria aragem de outono. Atravessa. Seus finíssimos braços. Gritos e prantos. Atravessa. A luz. Virgem. Portas e janelas. Tramelas. Da casa. Fiandeira de raios. Vai. Colorir o jardim. De girassóis. De crisantos. A luz. Ao teu encontro. Vai. Inventando cores súbitas. ....... .. TRINADO Tem poucos passos cantos exíguos agudos ? o viveiro fora da casa. O viveiro fora da casa abriga. Pássaros. De tamanhos e cores várias. Diferentes plumagens. Vozes. Desmedidas. Trinados. Não-uníssonos. Inexplicavelmente pelas telas esgarçadas poderiam escapar. Os pássaros. (Como a casa o viveiro fora da casa também em ruínas.) Poderiam as nuvens escalar. Em revoada. Mas não o fazem. Os pássaros. Inexplicavelmente permanecem. Monges alados. Extáticos. Na clausura. A cantar. Aos pássaros (só monges, sem asas) pouco importa. O espaço. Claro. Fora do viveiro fora da casa. Cantar é o que lhes basta. Ou lhes resta - aos pássaros pássaros. A REFORMA DA CASA 1. A torneira da pia. Quebrada. Pinga. Um verde líquido. De musgos. Na casa. Tudo cai. Aos pedaços. A poltrona-anciã. De espuma. Rasgada. Maços de hortelã. Amarelos. Na água-furtada. O par. De chinelas. De solas furadas. Tudo na casa ruindo. Aos poucos. Os dentes ocos. No sorriso. De tua avó. O telhado de zinco. Trincado. Cheio de estrelas. A caixa. De abelhas. Curupireiras. Na gameleira. Tudo na casa pedindo. Reforma. O portão de ferro. Só ferrugem. E zinabre. A mesa da copa. Bamba. Manca. Palafita. De três pernas tortas. O chuveiro elétrico ? usina de choques. A fechadura. Da porta. Que não abre nem fecha. A vida. Nesta cela. A vida suja. Bruta. Que não se reforma. 2. As paredes da casa perderam. A casca. (Teu tio-pedreiro sofre. De catarata.) Nos rodapés, frinchas rasas. Por onde somem. Lagartixas. Mandruvás. Baratas. Goteiras múltiplas. (Do teto. O céu desce.) Trazem a chuva. Para mais perto. É preciso tinta. Telhas novas. Massa corrida. Para os buracos. Da casa. Da casa sem paredes. Sem reforma. Em ruínas. Teu tio, quase cego. Nem vê. De catarata. Em opacas retinas. Chaque maison est une fable. SEXTA-FEIRA SANTA Mistura de palha. E líquido tinto. Enrugadas escamas. Repousam. Em debris. De lata. Peixes (garoupas) — de esclerótica amarela. E pescoço cinza. Fixam em vazadas pupilas pedras. De gelo. Sobre a pia. Onde o poema quando a morte tem cheiro? NATUREZA MORTA Flores no vaso. Invadindo. A janela. Pelo parapeito. De fora para dentro. Micro-caules se precipitam. Esfarpados. Gerânios. Envoltas em cortinas. Sanguinolentas ventosas. Sobre a pele vegetal o ultra- violeta. Solar. Balança. Suavemente. A brancura da tarde. Na esquina, penas brancas. E vermelhas. De uma pomba. Atropelada. Alçam vôo. |