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BIBLIOGRAFIA . poesia
VESTÍGIOS & RESÍDUOS (1999)ESTUDOS PARA AQUARELA (fragmentos) - I - Às vezes sou vento ou mar ou maresia. Às vezes sou nada ou apenas a angústia de nada ser. Às vezes sou pó ou poroso, múltiplo feito desenhos de nuvens. Às vezes me lembro físico humano como se fosse apodrecer. - II - Anda, arde, rastreia àvida do sumo do meu corpo no cio. Em hélice nos ares a recrio, úmida sobre a minha paixão. (Flor do espinho crista alvenaria.) Caminha sobre a minha pele e não sei se molha ou apenas goteja. Árvore da vida turbilhão de sons - memória - não é se assemelha. VESTÍGIOS (oil on canvas) (fragmentos) - II - As velhas sentavam como flores para murchar á beirada do sol. Olhavam a rua, os ladrilhos na calçada (os meninos fumando escondido). As velhas tricotavam desejos na soleira da casa e molhavam as calças, devagarzinho. É bom ser velha, me dizia minha avó, entre sonhos e catarata. O tempo passa mais devagar como o vento cinza de março - cego e manso. Lerdo. Tão lerdo que a gente nem sente passar. - V - A vida exata, branca medida igual poema uma letra, uma palavra, um verso tudo em seus lugares como as paredes da sala os tijolos, os quadros, os retratos os móveis e seus mortos os mortos e seu solilóquio. - IX - Abro os olhos e vejo o pássaro de bico quebrado sob o velho sol de agosto. Mago do passado conta as folhas molhadas de orvalho. No alto da árvore um tanto gasto seu canto vermelho brilha preparando a tarde. - XI - Eva batendo a carne na pia com a cachorrada em volta. Toma, Linda! Pega, Tulipa! Ralhava: coma a sua, Tuca! Entre vinagre, sonhos e sal Eva já passou da idade de casar e vive com uma gata no colo. Qualquer dia o Justino se resolve, diz. Quando o dinheiro der. Quando deus quiser. O amor tem formas estranhas, pensa o poeta; qualquer uma pode fazer feliz. CANTOS PARA UM AMOR BANAL (fragmentos) - III - Depois da noite vêm os teus olhos longos, oblíquos mirando o mar. O mar, em verde explode em tuas mãos repousa em teus ombros te concede o horizonte. Em ti, a nostalgia do olhar o mar recende a paixão antiga maresia do amor. Extática e infinita esperas ou preparas? Teus olhos: - frestas ocultas velas - VII - Cartas antigas papel amarelo e amassado; uma rosa branca suas pétalas meticulosamente escondidas e ressecadas; entre as dobras das folhas as palavras escritas a lápis que a borracha do tempo apagou. Às vezes, o amor pode ser tão banal quanto um coração de isopor. - VIII - Há uma hora em que somente sobra o cheiro acre, podre, doce da calcinha sobre a cama do nylon da camisola da porra do amor; há uma hora em que o sonho se desmancha feito água feito gás que no silêncio do quarto asfixia afoga. - X - Um amor quando finda deixa heranças esquisitas uma solidão fria tão funda quanto o poço mais fundo tão infinita quanto a lembrança alcança. Um amor quando finda passa além dos corpos embutidos nos armários além dos sonhos, dos sons e do silêncio e fica apenas uma cicatriz irreparável. RESÍDUOS (guache em papelão) (fragmentos) - III - Abrir os braços e regar as flores. Olhar a vida nas calçadas os homens, os carros, as pedras trabalhadas. Cuspir pro alto. - V - Há frutas caídas no corredor não de borco, mas um pouco de lado mostrando os melhores detalhes como se a morte as quisesse mais frescas ou apenas mais belas - VII - A noite semeia os campos com as sementes de teus olhos grão a grão, ininterruptamente colorindo o arrozal dos tempos. Há de vir a chuva suas folhas de zinco, o verde-selvagem do verão. Há de vir o azul o olhar frio do silêncio. Na manhã das águas esperarei o poema chegar. |